Ep. 21: Bare Nails

 

The Pink Diaries - Episode 21

Há alguns meses, parei de pintar as unhas. Tá, não completamente, mas resolvi poupar os meus neurônios de escolherem uma cor nova toda semana, e comecei a pintar vez ou outra, na maioria das vezes para um evento.

Não houve um grande manifesto. Não joguei meus esmaltes no lixo, não fiz um vídeo no TikTok anunciando minha nova fase e, definitivamente, não acordei dizendo: "a partir de hoje, serei adepta do minimalismo estético". Até porque de minimalista pouco sou.

Simplesmente aconteceu. Um esmalte lascado virou duas semanas sem esmalte. Duas semanas viraram um mês. E, quando percebi, minhas unhas estavam exatamente como nasceram: curtas, hidratadas, discretas e... estranhamente bonitas?

Confesso que gostei.

Gostei da praticidade, do tempo que economizei, da sensação de não precisar correr ao salão porque uma pontinha havia descascado, de passar bons minutos escolhendo o esmalte, só para pintar e detestar a cor no segundo seguinte. 

Foi então que descobri que aquilo tinha nome, como tudo costuma ter na internet.

Bare nails.

Oui Oui, nome importado, já nichado e com referências no campo da blogueiragem. E, como toda tendência contemporânea, ela chegou acompanhada de uma pergunta inevitável: estamos realmente voltando ao natural ou apenas inventamos uma nova forma de performar perfeição?

Porque a internet tem um talento quase sobrenatural para transformar escolhas pessoais em movimentos estéticos. Primeiro foi a maquiagem. Depois o cabelo. Depois a decoração. Depois o guarda-roupa. Agora são as unhas.

Tudo ganha um nome. Tudo vira tendência. Tudo precisa ser explicado.

E o curioso é que o movimento bare nails parece nascer justamente como uma reação ao excesso. Durante anos fomos convencidas de que unhas bonitas eram unhas longas, impecavelmente esmaltadas, com brilho espelhado, francesinhas, cromadas, encapsuladas, decoradas, alongadas ou qualquer outra palavra que os salões inventassem para justificar mais duas horas na cadeira e menos alguns bons reais na conta.

As unhas deixaram de ser unhas. Viraram um projeto arquitetônico: oval, caixão, estiletto, quadrada, quadrada arredondada...

E eu entendo completamente quem gosta disso. Conheço mulheres que fazem as unhas religiosamente há décadas, diabos, eu sou assim... era? Que tempo verbal devo usar para quando paro de fazer as coisas por pura preguiça. Continuando.... Conheço outras enxergam naquele momento um ritual de autocuidado. Há quem adore nail art como quem aprecia uma obra de arte em miniatura. E outras que deixam a unha crescer bastante porque unhas grandes te deixam próxima do céu - É esse o ditado? Ou é algo parecido com isso (Referência: The higher the hair, the closer to God, da mais icônica Dolly Parton)

E tudo bem. O problema nunca foi gostar de esmalte. O problema é quando começamos a acreditar que a unha natural era sinônimo de desleixo. Durante muito tempo, uma mulher com unhas sem esmalte parecia transmitir uma mensagem involuntária.

"Ela não teve tempo."

"Ela largou mão."

"Ela esqueceu de fazer."

É curioso como nunca assumíamos que aquela podia ser simplesmente... a unha dela. Talvez porque tenhamos aprendido que feminilidade exige manutenção constante. Existe uma expectativa silenciosa de que mulheres estejam sempre em processo de aperfeiçoamento.

O cabelo precisa estar hidratado. A pele precisa estar uniforme. As sobrancelhas precisam estar desenhadas. Os cílios precisam parecer naturalmente enormes — o que, ironicamente, costuma exigir duas horas de manutenção.

E as unhas? As unhas também precisavam provar alguma coisa. 

Por isso simpatizo tanto com o bare nails. Não porque acredito que unhas naturais sejam superiores às esmaltadas, longe disso. Mas porque, pela primeira vez em muito tempo, vejo um movimento dizendo que talvez nossas mãos não precisem estar permanentemente decoradas para serem bonitas, e está tudo bem.

Mas também não serei hipócrita, pois muito do que se posta e muito do que li sobre esse movimento tem um tom elitista e racista por meio de toda a suposta elegância. 

"Unha de mulher limpa".

"Esmalte de mulher vulgar"

Muitas dessas pautas são levantadas nas postagens sobre esse assunto, que conversa muito com outro conceito que ganhou força recentemente: o chamado quiet luxury, ou luxo silencioso. A ideia de que sofisticação não está necessariamente em ostentar, mas em cuidar. 

Menos excesso e mais qualidade.

Menos aparência de esforço e, consequentemente, mais conforto.

Só que existe um detalhe que me impede de abraçar qualquer tendência sem um pequeno pé atrás. Porque a internet possui um dom impressionante de transformar libertação em obrigação. Basta lembrar da pele "natural" ou "no make up look".

Mas a tendência só muda quando ataca sua antecessora.

Durante anos ouvimos que deveríamos abandonar a maquiagem pesada e aceitar nossas imperfeições. Pouco tempo depois, descobrimos que a tal pele natural exigia uma rotina de quinze produtos, lasers, ácidos, colágeno, alimentação impecável e uma genética bastante generosa.

A naturalidade virou um trabalho em tempo integral.

E me pergunto se não estamos caminhando para o mesmo destino com as unhas. Porque basta abrir as redes sociais para perceber que as chamadas bare nails raramente são apenas unhas naturais. São unhas perfeitamente lixadas. Cutículas impecáveis. Leitos ungueais uniformes. Brilho espelhado. Hidratação constante com óleos específicos. Bases fortalecedoras. Polidores importados.

A unha "natural" continua exigindo manutenção. Só mudou a estética. É como se tivéssemos substituído uma performance por outra.

Antes, performávamos feminilidade através da cor. Agora, performamos naturalidade através da perfeição. Isso porque ainda não entrei nos detalhes da "unha de mulher limpa" e como essa estética só abraça um tom de pele.

E talvez essa seja a maior ironia da indústria da beleza. Ela consegue vender até a ausência de consumo. Transforma o simples em sofisticado. O natural em tendência. O básico em estética.

E, de repente, aquilo que nasceu como uma escolha individual vira mais um padrão impossível de alcançar. Eu continuo gostando das minhas unhas naturais. Continuo economizando tempo, mais por preguiça do que por qualquer outra razão. Continuo achando bonito olhar para minhas mãos e vê-las exatamente como são.

Mas gostaria que isso continuasse sendo apenas uma escolha.

Não um novo ideal feminino.

Porque a verdadeira liberdade nunca tenha sido usar esmalte. Nem deixar de usar. Talvez ela esteja em não precisar justificar nenhuma das duas decisões.

No fim das contas, suspeito que o movimento bare nails diga muito menos sobre unhas e muito mais sobre o momento em que vivemos. Estamos cansadas do excesso. 

Cansadas e ponto final.

Cansadas da manutenção constante. Cansadas de transformar cada centímetro do corpo em um projeto de aperfeiçoamento. Existe um desejo coletivo de respirar um pouco. De voltar ao essencial. De aceitar que nem tudo precisa ser otimizado.

Mas espero, sinceramente, que não transformemos essa simplicidade em mais uma meta impossível. Porque, se até a naturalidade precisar ser perfeita, teremos apenas trocado a embalagem da mesma prisão.


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