Ep. 15: Have we turned our lives into never-ending projects

 

The Pink Diaries - Episode 15

Outro dia, antes mesmo de sair da cama, eu já tinha falhado.

Pelo menos foi essa a sensação.

Abri o Instagram e, em menos de cinco minutos, descobri que alguém já tinha corrido cinco quilômetros, outra pessoa já tinha meditado por vinte minutos, uma terceira estava lendo um livro sobre investimentos e uma quarta compartilhava sua rotina matinal perfeitamente organizada às 5h17 da manhã.

E eu?

Eu estava negociando comigo mesma a coragem necessária para levantar e escovar os dentes.

Foi então que me ocorreu um pensamento incômodo: e se a nossa geração não estiver vivendo a vida, mas gerenciando-a?

Porque tudo parece ter se transformado em projeto. O corpo é um projeto. A carreira é um projeto. Os relacionamentos são projetos. A saúde mental é um projeto. Os hobbies são projetos. A felicidade é um projeto.

E, sinceramente, estou começando a achar isso exaustivo.

Existe uma obsessão contemporânea por otimização. Não basta praticar exercícios porque você gosta, é preciso maximizar resultados. Não basta ler, você deve ler um número específico de livros por ano e não podem ser do seu gênero preferido, tem que ser sobre um tema específico da sua faculdade ou um trending topic atual.

Até o descanso parece exigir desempenho, até porque isso seria perda de tempo, não é mesmo? Você não pode simplesmente descansar. Precisa descansar da maneira correta. Com skincare, uma boa dose de journaling, pilates ou até mesmo meditação. Ah, e não vamos esquecer da hidratação adequada de 4l no mínino naquela garrafa da Go Case.

Caso contrário, aparentemente, você está descansando errado.

O mais curioso é que tudo isso costuma vir disfarçado de autocuidado. Mas, na maioria da vezes, me pergunto se não estamos apenas encontrando formas cada vez mais sofisticadas de cobrar produtividade de nós mesmos.

Porque até a terapia entrou nessa lógica. E digo isso como estudante de Psicologia. Percebo uma crescente expectativa de que a psicoterapia transforme as pessoas em versões mais eficientes de si mesmas. Como se o objetivo fosse eliminar toda insegurança, toda tristeza, toda contradição. Como se o ser humano ideal fosse aquele que funciona perfeitamente.

Mas talvez a função da terapia nunca tenha sido essa, quem sabe ela exista justamente para nos ajudar a conviver com aquilo que não pode ser otimizado. Com nossas falhas, dúvidas, limites e etc.

Enfim , nossa humanidade.

Porque, se formos honestos, existe algo contraditório acontecendo. Nunca tivemos tanto acesso a informações sobre bem-estar. Nunca tivemos tantos aplicativos para organização. Tantos métodos de produtividade. Tantos podcasts sobre desenvolvimento pessoal. Tantos especialistas ensinando como viver.

E, ainda assim, parecemos cada vez mais cansados, quem sabe isso não se dá porque administrar a própria vida tenha se tornado um trabalho de tempo integral.

Pensemos nos relacionamentos. Antigamente, as pessoas se perguntavam se estavam apaixonadas. Hoje, analisam compatibilidade emocional, linguagem do amor, estilo de apego, comunicação não violenta, alinhamento de valores, objetivos de longo prazo e potencial de crescimento mútuo.

Não me entendam mal. Nada disso é ruim. Na verdade, muitas dessas reflexões são importantes. Mas às vezes tenho a sensação de que estamos tratando vínculos humanos como startups.

Como se toda relação precisasse apresentar indicadores positivos de desempenho. Como se amar alguém fosse um projeto de gestão.

O mesmo acontece com os hobbies. Quando éramos crianças, desenhávamos porque era divertido. Escrevíamos porque precisávamos externalizar algo que estava guardado há muito. Cantávamos, mesmo com vergonha ou desafinando, porque era bom e nos dava uma boa dose de endorfina.

Hoje parece impossível fazer algo apenas pelo prazer de fazer. 

Tudo precisa gerar algum resultado. Parece que até nossos momentos de lazer precisam justificar sua existência. E talvez seja por isso que tanta gente se sente perdida. Porque fomos ensinados a transformar cada aspecto da vida em uma escada. Mas ninguém nos ensinou a sentar nos degraus e apreciar a vista, nor permitir simplesmente existir.

A palavra "crescimento" virou uma espécie de religião secular. Estamos constantemente tentando melhorar, seja o corpo, a carreira, a alimentação ou a rotina. E, bom, eu sei que existe algo bonito nisso, por trás da cortina da produtividade e o enhancement pessoal. Afinal, a busca por evolução faz parte da experiência humana.

O problema começa quando o crescimento deixa de ser uma possibilidade e se torna uma obrigação. Porque, nesse momento, a vida passa a ser vivida como um eterno estado de insuficiência. Você nunca está pronto e nem nunca chegou lá, portanto, nada é suficiente.

Sempre existe uma versão mais eficiente de você esperando na próxima meta. Na próxima certificação. Na próxima promoção. Na próxima mudança de hábito. Na próxima segunda-feira.

E eu me pergunto se essa promessa de melhoria contínua não está roubando nossa capacidade de reconhecer aquilo que já somos. Porque talvez algumas coisas não precisem ser corrigidas. Talvez algumas partes da nossa vida não sejam problemas a serem resolvidos. Talvez nem tudo precise virar meta.

Nem tudo precise virar projeto.

Talvez algumas coisas possam simplesmente existir, como uma conversa sem propósito ou uma caminhada sem destino só para refrescar as ideias. Um livro que deve ser lido devagar, ou uma tarde de mais puro ócio.

Porque, no fim das contas, existe uma diferença entre construir uma vida e administrar uma empresa. E, infelizmente, tenho a impressão de que esquecemos disso. Então, enquanto atualizava mais uma lista de objetivos para os próximos cinco anos, me ocorreu uma pergunta que, quem sabe, possamos refletir juntos: e se a melhor versão de nós mesmos não for aquela que está sempre evoluindo, mas aquela que finalmente aprende a jornada é a parte mais divertida?

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