Ep. 11: Is therapy for everyone?
The Pink Diaries - Ep. 11
Outro dia, enquanto respondia automaticamente um “estou bem” — sem nem ao menos pensar se aquilo era verdade — me peguei refletindo sobre uma das frases mais repetidas da nossa geração: “Você precisa fazer terapia.”
Ela aparece em vídeos do TikTok, legendas de Instagram, brigas de relacionamento e até como insulto passivo-agressivo. “Nossa, você claramente precisa de terapia.” Como se psicoterapia tivesse virado simultaneamente recomendação médica, conselho amoroso e ameaça velada.
Mas então me veio uma pergunta talvez um pouco mais desconfortável: a terapia é realmente para todo mundo?
Ou melhor: por que parece que estamos todos tão cansados a ponto de precisar de um lugar para reaprender a existir?
Porque, sejamos honestos, há algo profundamente estranho na forma como vivemos.
Acordamos cansados. Trabalhamos cansados. Dormimos cansados, e isso quando conseguimos dormir. Medimos nosso valor em produtividade, romantizamos exaustão e transformamos colapsos emocionais em sinais de comprometimento profissional.
“Ela trabalha tanto.”
“Ele é muito focado.”
“Ela não para nunca.”
E eu me pergunto: desde quando burnout virou traço de personalidade admirável?
Vivemos numa lógica quase canibal de desempenho. Uma engrenagem silenciosa onde tudo parece nos empurrar para o adoecimento. Precisamos performar no trabalho, nos relacionamentos, nas redes sociais, nos corpos que ocupamos, nas amizades que mantemos e até no jeito como sofremos.
Até descansar virou performance.
Você não pode apenas descansarm precisa ter um self-care aesthetic com aproximadamente 10 produtos diferentes.
E talvez seja justamente por isso que tantas pessoas chegam ao consultório já machucadas. Na maioria das vezes, ninguém procura psicoterapia porque acordou numa terça-feira ensolarada pensando: “Acho que seria divertido explorar minha subjetividade hoje.”
Geralmente, existe dor. Existe algo transbordando, algo que já não cabe mais no submundo de nós. Pode ser a ansiedade que virou rotina, ou a tristeza que deixou de ser episódica. Uma raiva constante que ninguém sabe exatamente de onde veio. Sensação de vazio. Medo. Exaustão.
Mas aqui existe uma diferença importante e talvez um pouco impopular de dizer em voz alta: sentir não é, automaticamente, adoecer. Ansiedade não é inimiga. Tristeza não é defeito. Raiva não é fracasso moral.
São emoções humanas. Fazem parte da experiência de existir.
A ansiedade, por exemplo, existe porque, em algum momento da evolução, ela foi necessária para nossa sobrevivência. É uma emoção que nos alerta: há perigo? precisamos fugir? lutar? nos preparar?
O problema é que, hoje, o perigo mudou de forma.
Não fugimos mais de predadores. Fugimos do medo de fracassar. Do medo de perder o emprego. Do medo de decepcionar. Do medo de não performar suficientemente bem. Do medo de sermos esquecidos. Do medo de não sermos desejáveis.
Do medo, sempre ele.
E quando tudo parece ameaça, o corpo entra em estado de vigilância permanente. Como não adoecer numa sociedade que exige hiperfuncionalidade enquanto desmonta nossas condições emocionais de existência?
Talvez a pergunta não seja “por que tantas pessoas estão ansiosas?”
Mas sim: como não estariam?
Só que aqui está uma coisa que, como estudante de Psicologia e quase psicóloga, venho aprendendo aos poucos: psicoterapia não deveria ser pensada apenas como um espaço de reparo.
Como se fosse um pronto-socorro emocional. Você quebra, sofre, colapsa — e então procura ajuda.
Mas e se terapia também fosse espaço de elaboração? De pausa? De encontro?
Porque existe algo profundamente revolucionário em ter um lugar onde você pode simplesmente pensar em voz alta sem medo de julgamento.
Um espaço onde ninguém está tentando ganhar uma discussão, corrigir sua narrativa ou oferecer um conselho genérico motivacional do tipo “é só pensar positivo.”
Às vezes, psicoterapia não é sobre grandes traumas. Às vezes é sobre decidir se você quer mudar de carreira. Entender por que certos relacionamentos sempre terminam do mesmo jeito. Reconhecer padrões. Organizar afetos. Aprender a nomear aquilo que dói. Ou simplesmente existir diante de alguém sem precisar performar competência o tempo inteiro.
Porque talvez um dos maiores sofrimentos do nosso tempo seja justamente este: ninguém mais sabe onde pode ser vulnerável sem medo de parecer fraco.
E aqui me lembro de uma frase de Jung que sempre me atravessa de alguma forma: a ideia de que, ao tocar outra alma humana, precisamos ser apenas outra alma humana.
Existe algo muito bonito nisso.
Porque, apesar de todas as técnicas, teorias e métodos, e eles importam, claro, não sou louca de dizer que não, no fim do dia ainda estamos falando de encontro.
De alguém que fala.
De alguém que escuta.
De um espaço onde a dor pode existir sem precisar imediatamente ser corrigida.
Então… terapia é para todo mundo?
Talvez não no mesmo momento. Talvez não da mesma forma. Talvez nem todo mundo queira, precise ou esteja pronto.
Mas suspeito que quase todo mundo, em algum ponto da vida, precise de um lugar seguro para reorganizar a própria bagunça interna.
Porque viver já é complexo demais. E, por mais absurdo que isso deva soar para algumas pessoas, talvez ninguém devesse precisar fazer isso completamente sozinho.
E então fiquei me perguntando: em uma sociedade que nos ensina a sobreviver, mas raramente a sentir, será que a terapia virou necessidade… ou apenas o único lugar onde ainda nos autorizamos a ser humanos?
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