Ep. 16: What happens when your life finally begins

 

The Pink Diaries - Episode 16

Quando eu era criança, acreditava que a vida adulta começaria de forma muito específica. Eu pensava que começasse no dia da minha formatura ou quando eu recebesse meu primeiro salário. Melhor ainda, começaria quando eu me casasse, que, na minha cabeça de 5 anos, aconteceria quando eu fizesse 18.

Eu não sabia exatamente qual seria o marco, mas tinha certeza de uma coisa: haveria um momento.

Uma espécie de transição cinematográfica, talvez? Como nos filmes em que a protagonista finalmente chega ao capítulo principal da sua história. E então a vida começaria de verdade.

Mas recentemente percebi uma coisa estranha. A vida adulta não chega, não faz anúncio e nem tem trilha sonora. Não existe um narrador dizendo: "Parabéns, você desbloqueou a fase principal da existência."

Você simplesmente acorda numa terça-feira qualquer e percebe que ela já começou. E talvez esse seja um dos maiores choques da vida adulta. Passamos anos nos preparando para viver. E tão pouco tempo percebendo que estamos vivendo.

Durante boa parte da minha vida, estudei pensando no futuro: Ensino médio para entrar na faculdade, e então, faculdade para construir uma carreira, e para finalizar com chave de ouro, uma carreira para alcançar estabilidade. Ah, mas não posso esquecer, a estabilidade é para construir uma família.

Uma sequência infinita de portas que levam a outras portas. E viver assim não está errado, de forma alguma. Afinal, os sonhos nos movem e a metas nos direcionam.

Acho que o problema aparece quando transformamos o presente em uma mera sala de espera, quando começamos a acreditar que a vida real está sempre logo ali na frente.

E eu me pergunto quantas pessoas estão vivendo exatamente assim, eu mesma funciono assim na maioria dos dias. Presa em um estado permanente de preparação, esperando aquele momento em que serei verdadeiramente feliz ou pronta.

Como se a felicidade fosse um destino, como se a vida fosse algo que acontece depois. Talvez isso explique por que tantos de nós vivemos ansiosos. Porque estamos constantemente divididos entre dois lugares.

O corpo está aqui, de um lado, mas a mente já está no próximo capítulo.

Nunca agora.

Nunca hoje.

E é curioso porque, se alguém me perguntasse há cinco anos onde eu gostaria de estar hoje, provavelmente eu descreveria algo muito parecido com a vida que tenho atualmente.

Estou estudando aquilo que amo, tenho pessoas que amo, tenho sonhos que continuam me movendo,  planos e possibilidades.

Mas, de alguma forma, ainda me pego pensando naquilo que falta. Naquilo que ainda não aconteceu. Na mulher que ainda não me tornei.

E talvez seja aí que mora a armadilha.

Porque sempre haverá uma próxima versão. Sempre existirá um próximo sonho. A lista nunca termina. E graças a Deus por isso. Porque os sonhos dão direção, mas eles não podem ser o único lugar onde habitamos.

Caso contrário, passamos a vida inteira perseguindo horizontes. Sem perceber a paisagem ao redor.

Recentemente, tenho pensado muito nos meus próprios sonhos. Quero ser uma profissional bem-sucedida e pretendo fazer especializações. Talvez um mestrado e, quem sabe, um doutorado. Quero conhecer outros países e construir uma família. Quero envelhecer ao lado do meu namorado que, eu espero que logo, se torne meu marido.

Enfim, quero tantas coisas que às vezes sinto vertigem só de pensar. E, durante muito tempo, olhei para esses sonhos como evidência da distância que ainda preciso percorrer. Hoje tento enxergá-los de outra forma. Como evidência do caminho que já comecei.

Porque a futura psicóloga, pesquisadora, esposa, mãe e viajante está sendo construída agora. E, felizmente e infelizmente, todas elas dependem da pessoa que existe hoje. Desta versão atual, imperfeita, inacabada e em construção.

Será que esse é o segredo que ninguém nos conta. A vida não acontece quando chegamos. Acontece enquanto estamos indo. Enquanto tentamos descobrir quem somos. Enquanto economizamos dinheiro para viagens que ainda não fizemos. Enquanto sonhamos com filhos que ainda não nasceram. Enquanto escrevemos capítulos cujos finais ainda desconhecemos.

Porque, no fim das contas, não existe um momento mágico em que a vida começa.

Existe apenas uma sucessão de dias comuns que, um dia, olhamos para trás e percebemos que eram extraordinários. E então me peguei pensando: e se estivermos tão ocupados nos preparando para a vida que não percebemos que, silenciosamente, ela já começou há muito tempo?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ep. 15: Have we turned our lives into never-ending projects

The Pink Diaries - Prólogo

Ep. 11: Is therapy for everyone?