Ep. 12: When did taste became so... untasteful

 

The Pink Diaries - Ep.12

Outro dia, enquanto rolava o Pinterest pela centésima vez em busca de absolutamente nada (ou talvez de uma inspiração para alguma coisa), me deparei com uma imagem de uma estante perfeitamente organizada. Havia livros que provavelmente nunca foram lidos, uma câmera analógica que certamente nunca viu um filme fotográfico, uma máquina de escrever que jamais escreveria uma única palavra e, estrategicamente posicionada no canto, uma pilha de revistas de moda dos anos 1990.

Tudo muito bonito, não me entendam mal. Tudo muito estiloso e, ao mesmo tempo, muito morto.

Foi então que descobri um termo que parece descrever uma sensação que me acompanha há algum tempo: taste slob. Que curiosamente me foi sugerido na minha for you do Tiktok logo após eu ter saído do Pinterest. Engraçado, não é? 

Como o algaritmo consegue ser tão preciso, mesmo quando a crítica é para ele... 

Não existe uma tradução exata para o português (ainda, ao menos), mas a ideia gira em torno de algo que tem me incomodado cada vez mais: o consumo da estética sem qualquer interesse pelo contexto que a originou.

Não é exatamente sobre elitismo cultural. Não é sobre impedir que as coisas se popularizem. É sobre quando um objeto, uma referência ou um símbolo perde completamente sua função, sua história e seu significado para virar apenas decoração, com o mero intuito de se tornar esteticamente palatável.

Como se o gosto pessoal tivesse sido substituído por um catálogo.

Pense nas estantes cheias de clássicos. Livros transformados em papel de parede intelectual, que foram verdadeiramente lidos por aquela família, ou até mesmo foram passados de geração em geração para que os descendentes tivessem algo de seus antepassados. Com dedicatórias, mensagens, pensamentos anotados nas entrelinhas... 

Agora, imaginemos as câmeras analógicas adquiridas por pessoas que jamais revelaram um filme na vida. Que compraram porque gostaram do blur que fica no resultado final.

Ou ainda nos discos de vinil que nunca tocaram numa vitrola, que ficam como decoração em uma parede ou servindo de apoio de planta em uma mesinha de canto, triste e esquecido.

Não há nada de errado em gostar da aparência dessas coisas. O problema surge quando a aparência passa a ser tudo o que importa.

Porque existe uma diferença entre apreciar algo e simplesmente consumir sua embalagem.

A máquina de escrever não era bonita porque parecia vintage. Ela era bonita porque carregava uma história, ou melhor, transmitia uma. O vinil não era interessante porque combina com uma decoração minimalista, mas sim porque representava uma forma específica de ouvir música.

O mesmo acontece com a moda.

E talvez seja aí que meu problema realmente comece.

Vivemos numa época em que praticamente qualquer estética pode ser comprada pronta, num bundle praticamente. Você pode adquirir um guarda-roupa inteiro de "old money" sem jamais ter lido um único livro que inspirou aquele imaginário. Ou um escritório estilo "Ralph Lauren" (sim, existe, procure nas redes sociais e você verá milhões de publicações assim), que é mais pela estética do que pela funcionalidade ou estilo próprio. Pode vestir roupas "dark academia" sem qualquer interesse por literatura, filosofia ou real apreço  por esse tipo de conhecimento.

Tudo virou fantasia de consumo. Uma espécie de cosplay permanente de estilos de vida.

E eu sei que isso pode soar implicante da minha parte, talvez realmente seja.

Mas existe algo profundamente estranho em ver objetos, símbolos e referências culturais sendo esvaziados até se tornarem apenas adereços. É como se estivéssemos vivendo numa gigantesca loja de cenários, ou sei lá, um backroom estilizado.

Nada precisa significar nada.

Só precisa parecer, ter uma existência bonita para ser visto e nunca refletido.

Recentemente, por exemplo, tenho visto uma obsessão coletiva por bibliotecas domésticas. O que, em teoria, deveria me deixar feliz, visto que eu amo livros e sou uma leitora ávida. Mas não consigo evitar a sensação de estranhamento quando percebo que muitas dessas bibliotecas são montadas como quem escolhe almofadas para um sofá.

Os livros não são comprados para serem lidos. São comprados para serem vistos. Ou pior ainda, são lidos de forma a nunca aparentarem que foram lidos, não pode ter uma ranhura na coluna, ou uma orelhinha na capa ou uma marcação de lápis ou caneta em uma parte emocionante. 

E isso me faz pensar em algo que a internet fez de forma brilhante e terrível ao mesmo tempo: ela democratizou o acesso às referências. O que é ótimo, acreditem quando eu digo que o conhecimento sempre tem de ser acessível a todos, pois quanto mais soubermos sobre um assunto, melhor poderemos tomar nossas decisões.

Mas também transformou referências em mercadorias. O que eu considero como complicado.

Porque quando tudo se torna imediatamente acessível, começamos a consumir símbolos na mesma velocidade com que consumimos roupas, tendências e vídeos de quinze segundos. Não há tempo para aprofundamento, não há curiosidade, não há relação.

Apenas aquisição.

E talvez seja por isso que tantas estéticas pareçam tão vazias atualmente. Elas não nasceram de interesses. Nasceram de algoritmos. A pessoa não desenvolve um gosto próprio, ela seleciona um pacote pronto de referências.

Talvez seja por isso que séries antigas, livros antigos e movimentos culturais antigos ainda me fascinem tanto. Porque eles foram criados antes da necessidade de serem imediatamente consumíveis. Antes de tudo virar conteúdo. Antes de cada objeto precisar provar seu valor estético em uma fotografia de quinze segundos.

E não me entendam mal: eu adoro coisas bonitas. Mas gosto ainda mais de coisas bonitas que possuem história. De objetos usados. De livros sublinhados. De roupas gastas. De discos arranhados. De coisas que carregam evidências de vida, de existência.

Porque o estilo, para mim, nunca foi sobre acumular símbolos. Sempre foi sobre construir significado, sobre se expressar para além do que é falado.

E talvez seja exatamente isso que o taste slob representa: o momento em que a estética sobrevive, mas o sentido desaparece.

E então me peguei pensando: quando foi que paramos de nos interessar pelas histórias por trás das coisas e começamos a nos interessar apenas pela aparência de quem as possui?


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