Ep. 9: Sex, dating and marriage
Outro dia, enquanto observava casais perfeitamente editados no Instagram, daqueles que parecem ter sido montados pela equipe de marketing da felicidade, me peguei pensando: em que momento o amor virou uma linha do tempo corporativa?
Primeiro encontro. Primeiro beijo. Pedido de namoro. Sexo. Viagem de casal. Conhecer a sogra. Morar junto. Noivado. Casamento. Filho. Cachorro de porte médio. Apartamento com cozinha americana.
Como se amar fosse uma checklist.
E então me veio uma pergunta perigosamente inconveniente: existe, de fato, uma ordem certa para os relacionamentos? Ou estamos todos apenas fingindo que sabemos o que estamos fazendo?
Porque, sejamos honestos: o amor moderno é uma bagunça organizadamente disfarçada.
Durante anos nos venderam três possibilidades quase oficiais. A primeira — talvez a mais popular entre nós, sobreviventes do capitalismo emocional — é a clássica fórmula contemporânea: conhecer, transar, decidir se a pessoa mastiga alto demais e, quem sabe, casar.
É o amor por teste-drive.
Você sai para jantar, compartilha traumas da infância no terceiro encontro (porque terapia virou quase linguagem do flerte), divide uma cama e pensa: será que eu conseguiria sobreviver emocionalmente a essa pessoa gripada?
E aqui eu preciso falar dela: Miranda Hobbes. Não a Miranda romantizada dos memes, mas a verdadeira — cínica, pragmática, emocionalmente inteligente o suficiente para desconfiar do próprio coração. Miranda provavelmente diria que testar compatibilidade sexual antes do casamento não é promiscuidade, mas gestão de risco. Afinal, por que assinar um contrato vitalício sem nem saber se existe química além do algoritmo e da rotina?
E sinceramente? Ela talvez tivesse um ponto.
Mas então existe o outro lado da história: o amor como construção sagrada. Namoro, casamento, sexo. A lógica tradicional, religiosa, quase litúrgica.
A ideia aqui não é sobre repressão, apesar do que muitos gostam de presumir. É sobre significado. Sobre acreditar que intimidade física não é um capítulo qualquer da história, mas um ponto de chegada.
E eu entendo o apelo disso. Em um mundo onde tudo é instantâneo, há algo quase revolucionário em esperar. Embora, sejamos francos, também exista um certo perigo em transformar o casamento numa embalagem misteriosa do tipo “surpresa, descubra o que tem dentro depois de assinar os papéis”. Porque compatibilidade sexual não é detalhe. É linguagem. É comunicação. É política doméstica. É também afeto.
E, no meio dessas duas visões, existe uma terceira categoria: os emocionalmente exaustos tentando equilibrar razão e desejo sem parecer desesperados.
Os que pensam: vamos namorar, nos comprometer minimamente, transar, observar as red flags e decidir depois.
É menos romântico, talvez. Mas também parece honestamente humano.
Só que aqui está a parte que ninguém gosta de admitir: nenhuma ordem protege alguém da dor.
Cleópatra, por exemplo, seduziu imperadores, negociou poder como quem domina uma arte e ainda assim não escapou da tragédia. Talvez porque amor nunca tenha sido sobre estratégia, mas sobre vulnerabilidade — algo que nem rainhas conseguem controlar.
E depois penso em Tituba, a mulher silenciada e demonizada nas narrativas da caça às bruxas, tão brilhantemente reconstruída por Maryse Condé em Eu, Tituba: Bruxa Negra de Salem. Tituba amou, acreditou, seguiu homens e promessas, apenas para descobrir que devoção nem sempre impede abandono. Há algo dolorosamente contemporâneo nisso, porque, venhamos e convenhamos, não é só a história que é cíclica, mas o sofrimento também.
Quantas mulheres ainda confundem entrega com garantia?
Porque ninguém fala sobre a armadilha secreta do amor: acreditamos que, se fizermos tudo “na ordem certa”, sofreremos menos.
Spoiler cruel: não funciona assim.
Você pode esperar até o casamento e ainda encontrar desencontros. Pode transar no primeiro encontro e construir um amor de décadas. Pode fazer tudo “errado” e encontrar paz. Ou fazer tudo “certo” e terminar dividindo móveis num domingo chuvoso.
Talvez a pergunta nunca tenha sido sobre qual é a sequência ideal.
Talvez a verdadeira questão seja: o que você está buscando quando ama? Segurança? Liberdade? Companhia? Desejo? Aprovação? Um porto? Um espelho?
Porque existe uma diferença brutal entre amar alguém e usar alguém para sustentar uma narrativa sobre quem você gostaria de ser.
No fim das contas, talvez não exista uma ordem universal. Existe contexto. Valores. Desejos. Medos. E a honestidade brutal de admitir aquilo que realmente importa para você, sem copiar o roteiro do casal do Instagram ou da amiga recém-casada que agora fala de “propósito conjugal” como se estivesse numa TED Talk espiritual.
E talvez Carrie Bradshaw, quem me inspira na hora de escrever as linhas tortas e possivelmente sem sentido, perguntasse algo como: Em tempos de amores acelerados e promessas frágeis, estamos buscando parceiros… ou apenas tentando encontrar alguém que confirme que nossa própria forma de amar não está errada?
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