Ep. 8: The illusion of modern masculinity

 
The Pink Diaries - Ep. 8

Um dia desses decidi rever a trilogia de filmes "O Senhor dos Anéis", trilogia esta que me acompanha desde a minha infância e que moldou muito a forma que eu enxergo o mundo e nessa maratona fiquei com um sentimento áspero no peito, inquietante e incômodo.

Há uma nova estética masculina circulando por aí e, curiosamente, ela fala muito alto sobre força… enquanto se mostra profundamente desconfortável com qualquer forma real de vulnerabilidade. Chamam de disciplina, de autocontrole, de “estoicismo moderno” (ai, bestie, que piada). 

Eu, honestamente, tenho chamado de um silêncio emocional mal disfarçado de superioridade.

O fenômeno não é novo, mas ganhou nome, algoritmo e comunidade: redpill, masculinidade alfa, “homens de alto valor” e/ou incel. Não são termos sinônimos, mas atualmente estão sendo intercambiáveis. Termos que prometem devolver aos homens um suposto poder perdido, algo que eles por algum motivo perderam e esqueceram de procurar, quase sempre à custa de uma simplificação perigosa do que significa, de fato, ser homem. Porque, no meio de tantos discursos sobre dominação, hierarquia e controle, há uma ausência gritante: humanidade.

O curioso é que muitos desses homens juram seguir o estoicismo, uma filosofia que, ironicamente, nunca defendeu a negação das emoções, mas sim o seu entendimento e regulação. Existe uma diferença abismal entre sentir e ser dominado pelo sentimento e simplesmente se anestesiar. O primeiro exige maturidade. O segundo, fuga.

E talvez seja justamente essa fuga que esteja sendo romantizada.

Há uma espécie de caricatura em circulação: o homem que não demonstra, não se apega, não se abala. Que transforma afeto em fraqueza e empatia em risco. Mas, olhando mais de perto, essa figura parece menos forte do que gostaria de parecer e mais assustada do que jamais admitiria. Porque reprimir emoções não é força. É incapacidade de lidar com elas.

E então, inevitavelmente, eu pensei em Aragorn, de J. R. R. Tolkien, que talvez, na minha humilde opinião, é um dos retratos mais honestos de masculinidade que a ficção já nos deu. Um homem que luta, sim, mas que também cuida. Que lidera, mas não se coloca acima de ninguém. Que sente medo, dúvida, luto e ainda assim segue em frente. Não apesar disso, mas com isso.

Aragorn não performa força, ele a sustenta. Ele é! E sustentar e ser, ao contrário do que muitos parecem acreditar hoje, exige mais do que músculos ou silêncio. Exige responsabilidade emocional. Exige humildade. Exige a capacidade de proteger sem precisar dominar, de liderar sem precisar diminuir o outro.

O problema é que esse tipo de masculinidade não viraliza tão facilmente. Ela não é barulhenta, não é simplista, não cabe em frases prontas ou vídeos de trinta segundos. Ela exige construção interna e construção não vende tão bem quanto promessa de poder imediato.

Enquanto isso, seguimos assistindo a uma geração de homens sendo ensinada a temer o próprio mundo interno. A tratar sentimentos como ameaças, mulheres como adversárias e relações como jogos de estratégia. Tudo isso embalado em uma narrativa de “evolução pessoal” que, no fundo, parece mais uma regressão emocional bem editada.

E talvez a pergunta mais desconfortável não seja sobre eles, mas sobre o que estamos normalizando ao aplaudir esse discurso.

Porque, no fim, eu me dei conta de que a verdadeira força nunca foi sobre não sentir, mas sobre ter coragem de não fugir de si mesmo. E eu não pude deixar de me perguntar: em um mundo onde tantos homens estão aprendendo a endurecer… quem, exatamente, está ensinando-os a serem inteiros, verdadeiramente inteiros?


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