Ep. 5: Is it time to go back in time?
The Pink Diaries - Ep. 5
Houve um tempo em que acordar significava, simplesmente, abrir os olhos ao som estalado de um despetador de metal, ou até mesmo o cair de pregos preso em uma vela. Hoje, para muita gente, significa desbloquear a tela.
E foi justamente nesse pequeno gesto — quase automático, quase inocente — que eu comecei a desconfiar de que havia algo profundamente errado.
Não foi um colapso dramático. Foi mais sutil, algo muito comum nas psicossomatizações.
Minha mente acelerada antes mesmo do café, uma ansiedade sem nome depois de vinte minutos de “só mais um scroll”, noites em que o sono parecia sempre adiado por um vídeo a mais, uma atualização a mais, uma vida alheia a mais. Até que, em algum momento entre o cansaço e a lucidez, eu fiz algo quase radical: comprei um despertador.
Sim, um despertador. Um objeto que parece saído de uma década em que as pessoas ainda acordavam para viver e não para conferir notificações. E, de repente, o meu celular deixou de ser a primeira coisa que eu tocava pela manhã.
Parece pouco. Mas não é.
Estamos vivendo — e por estamos, quero dizer eu e mais alguns colegas da geração Z — o que alguns chamam de “analog life”, mas que eu prefiro chamar de um leve retorno à sanidade. Não se trata de abandonar a tecnologia, pois sejamos honestas, ninguém está pronta para isso, mas de estabelecer limites em um mundo que lucra justamente com o nosso uso desses quadradinhos multifuncionais.
Porque a verdade é que o digital não foi feito para ser neutro. Ele foi projetado para nos prender. A rolagem infinita não é um acidente, é estratégia. E nós, bem-intencionadas e levemente exaustas, seguimos deslizando o dedo como se estivéssemos no controle quando, na prática, somos conduzidas.
Voltar ao analógico, então, torna-se quase um ato de rebeldia silenciosa, algo que sempre me foi muito querido.
É escolher um livro de papel em vez de uma tela que nunca se apaga. É escrever à mão, com erros e rasuras, em vez de apagar pensamentos como se eles nunca tivessem existido. É ouvir um disco até o fim, sem pular, sem acelerar, sem distrações, como se a paciência fosse, novamente, uma virtude.
E talvez o mais provocativo de tudo isso seja o tédio, o tê-lo e conviver com ele.
Sim, o tédio. Aquela sensação que passamos anos tentando eliminar, mas que agora começa a parecer… necessária. Porque é no tédio que a mente desacelera. É nele que surgem ideias que não cabem em quinze segundos de vídeo. É nele que, ironicamente, a gente volta a pensar.
Não usar o celular uma hora antes de dormir virou, para mim, menos uma regra e mais um resgate. Como se eu estivesse devolvendo ao meu próprio corpo o direito de descansar sem interrupções. E acordar sem ele nas mãos? Estranhamente libertador. Quase como recuperar um pedaço de mim que eu nem sabia que tinha perdido.
E digo isso sendo uma pessoa nascida em 2001. Minha infância em si não foi marcada pelas telas, visto que, ao resgatar fragmentos da minha memória, minha casa tinha uma TV de tubo, diversos DVDs, minha irmã mesmo tinha uma MP3 que eu insistia em roubar... Até a própria Internet era em um modem, logo o uso era relativamente restrito. Agora, pensemos nas nossas crianças, a tão temida geração Alpha...
Mas enfim, apenas um food for thought, retornemos ao tema... Claro, há um certo charme nisso tudo, na vida analôgica, eu quero dizer: câmeras analógicas, cadernos bonitos, vinis perfeitamente imperfeitos. Mas reduzir esse movimento à estética seria um erro. Isso não é sobre parecer interessante. É sobre conseguir, de fato, estar presente.
No fim, ao escrever essas linhas pra lá de tortas, eu me dei conta de que talvez a questão nunca tenha sido tecnologia demais, mas, ouso eu dizer, consciência de menos.
E eu não pude deixar de me perguntar: em um mundo que nunca para de nos chamar, será que o verdadeiro luxo não está justamente em aprender a não atender?
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