Ep. 4: Why we need to know the horrors of history
Há algo desconfortável em sentar para assistir a um filme sabendo que ele não foi feito para entreter — foi feito para lembrar. E "Nuremberg" faz exatamente isso: ele não pede licença, não suaviza, não oferece alívio.
Ele insiste, incomoda, não se limita a arte de entreter.
Ambientado no pós-guerra, que, em mim, suscita uma curiosidade quase mórbida, o longa acompanha o psiquiatra Douglas Kelley, interpretado por Rami Malek, encarregado de avaliar a sanidade de líderes nazistas antes de seus julgamentos. Do outro lado dessa relação quase claustrofóbica está Hermann Göring, vivido por Russell Crowe, um homem que, ao contrário do que talvez gostaríamos de acreditar, não se apresenta como um monstro irracional, mas como algo muito mais perturbador: alguém lúcido, articulado e plenamente consciente.
E talvez seja aí que o filme se torna indigesto. Porque seria mais fácil se o mal tivesse sempre a aparência da loucura, se fosse detectável com um teste ou uma simple psicoavaliação. Sem sombra de dúvidas, seria muito mais confortável pensar que atrocidades como o Holocausto nasceram de mentes completamente desconectadas da realidade. Mas "Nuremberg" desmonta essa fantasia com uma frieza quase cirúrgica: muitos daqueles homens sabiam exatamente o que estavam fazendo e o fizeram ciente de seus atos.
A relação entre Kelley e Göring não é apenas um embate intelectual, é um confronto moral que coloca em xeque tudo o que o psiquiatra pensava saber. E essa oportunidade que Kelley teve é uma que muitos profissionais da saúde mental gostariam de ter,por mais mórbido que seja, afinal, só sabemos o que é saúde, ao termos o seu oposto: sua degradação.
E nisso, muito questionamentos são levantados: Até que ponto é possível estudar o mal sem ser afetado por ele? Até que ponto compreender não se aproxima perigosamente de justificar?
Há momentos em que o filme parece menos interessado em respostas e mais empenhado em nos deixar desconfortáveis com as perguntas, visto que o próprio Dr. Douglas é colocodo para refletir justamente não só sobre o papel da própria Alemanha Nazista na Segunda Guerra Mundial, mas também dos Estragos Unidos, perdão, quis dizer Estados Unidos.
Diante disso, seu próprio patriotismo e tudo o que ele sabia sobre a psiquiatria foi colocado em jogo.
Baseado no livro "The Nazi and the Psychiatrist", de Jack El-Hai, o filme mergulha na ideia de que a crueldade não é um desvio raro, mas uma possibilidade humana diante de uma margem, que muitas vezes pode ser mínina, de poder. E isso, mais do que qualquer cena explícita, é o que realmente assusta.
Vivemos em uma era que consome true crime como entretenimento leve e transforma tragédias em conteúdo de fácil digestão, não para estudar, mas para se "apaixonar" pelo serial killer. Não para se enojar com o próprio ato em si e suas consequências, mas para dizer que assistiu tal e tal série.
Mas há histórias que não deveriam ser “consumidas” — deveriam ser confrontadas. E talvez seja por isso que filmes como "Nuremberg" sejam tão necessários, ainda que incômodos. Eles nos obrigam a olhar para aquilo que preferiríamos esquecer.
Porque esquecer, convenhamos, é sempre mais confortável. O problema é que o esquecimento não apaga a história, apenas a deixa disponível para ser repetida. E saibam disso, ela será repetida. Não se enganem ao pensar que um lado ou o outro é moldado por pessoas perfeitas e incorruptas, afinal, ambos são constituídos por homens e estes, por sua vez, estão fadados ao erro.
Porém, existem erros e existem erros que ferem os direitos humanos, e é nessa avaliação que não estamos conseguindo enxergar as repercussões futuras. Talvez porque estejamos ocupados demais transformando a política em um roteiro simplificado demais para um país complexo demais.
Reduzimos o debate público a uma espécie de duelo emocional entre duas figuras, como se o Brasil estivesse condenado a escolher, eternamente, entre duas opções e seus respectivos familiares, ignorando deliberadamente que vivemos em um sistema que permite — ao menos em teoria — muito mais do que isso.
Não somos um reflexo do modelo bipartidário norte-americano, ainda que insistamos em imitá-lo com uma fidelidade quase caricata (e, se me permitem falar, que síndrome de vira-lata!). Aqui, há múltiplos partidos, múltiplas vozes, múltiplas possibilidades. Mas, na prática, escolhemos o conforto da polarização.
É mais fácil torcer do que pensar. Mais fácil defender do que questionar. Mais fácil odiar o outro lado do que exigir coerência do próprio.
E talvez seja aí que a história comece a se repetir de formas mais sutis... não necessariamente nos grandes eventos que chocam o mundo, mas nas pequenas concessões cotidianas. Quando relativizamos o inaceitável porque supostamente “veio do lado certo”. Quando deixamos de criticar porque “poderia ser pior”. Quando trocamos análise por lealdade cega.
E no meio de tudo isso, escrevendo para o meu The Pink Diaries, eu me peguei pensando: será que evitamos esses filmes porque eles são pesados demais… ou porque, no fundo, temos medo de reconhecer o quanto somos capazes de entender e talvez até reproduzir aquilo que juramos condenar?
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