Ep. 10: Why i love the y2k tv series
The Pink Diaries - Ep. 10
Existe uma tragédia silenciosa acontecendo na televisão moderna, e não, não estou falando de finais ruins (embora existam vários crimes imperdoáveis nesse departamento). Estou falando do desaparecimento de algo que talvez tenha feito as séries dos anos 90 e 2000 serem tão inesquecíveis: o tempo.
Tempo para desenvolver personagens. Tempo para errar. Tempo para nos fazer amar alguém profundamente antes de destruírem emocionalmente nossa estabilidade.
Outro dia, enquanto assistia Criminal Minds pela centésima veze a, e inda me importava genuinamente com o que Spencer Reid estava sentindo, me peguei pensando: quando foi que as séries deixaram de querer companhia e começaram a pedir apenas atenção?
Porque existe uma diferença.
As séries Y2K queriam que você morasse nelas.
Você não apenas assistia Gilmore Girls, você queria viver em Stars Hollow, tomar café no Luke’s, ouvir as referências culturais absurdamente específicas da Lorelai e sentir que fazia parte daquela cidade pequena emocionalmente caótica.
Você não apenas assistia Supernatural, você entrava no Impala e, de alguma forma, se tornava parte daquela estrada infinita ao lado dos irmãos Winchester. Quinze temporadas parecem absurdas até você perceber que o segredo nunca foi a trama principal. Era a intimidade. Era sentir que Sam e Dean eram quase pessoas reais, aqueles amigos que você visita depois de um dia ruim porque sabe exatamente quem elas são.
E talvez seja esse o ponto que as produções atuais parecem ter esquecido: não nos apaixonamos por histórias. Nos apaixonamos por familiaridade.
Veja Dexter, por exemplo. Objetivamente, acompanhar um serial killer que também é um perito forense narrando seus impulsos homicidas internos não deveria ser reconfortante. E, no entanto, existe algo profundamente íntimo na forma como a série nos deixa entrar na cabeça dele. Nós conhecemos seus pensamentos, suas contradições, sua estranheza. Depois de oito temporadas, Dexter Morgan deixa de ser personagem. Ele vira hábito.
Quase um colega de apartamento emocional.
O mesmo acontece com Law & Order: SVU. Em algum momento, Olivia Benson deixa de ser apenas uma detetive e passa a parecer aquela amiga exausta, inteligente e ligeiramente traumatizada que você acompanha há anos. Você conhece seus silêncios. Seus padrões. Sua dor.
E talvez isso só fosse possível porque, antigamente, as séries entendiam algo revolucionário: você não precisa correr para contar uma história boa.
Havia episódios “inúteis”. Aqueles que não moviam exatamente a trama principal, mas aprofundavam personagens. Pequenos conflitos. Conversas banais. Momentos aparentemente irrelevantes.
Eram justamente esses momentos que criavam vínculo.
Hoje, tudo parece excessivamente eficiente.
As séries modernas parecem escritas por alguém obcecado com retenção de público. O primeiro episódio precisa ter um assassinato, uma reviravolta, um trauma de infância, um plot twist, uma tensão romântica e, se possível, uma crise existencial antes dos créditos iniciais.
É entretenimento produzido com ansiedade. Tudo é rápido. Mastigado. Quase pronto. E é por isso que não existe espaço para respirar e muito menos para sentir saudade do personagem.
Talvez seja por isso que eu nunca consegui me conectar verdadeiramente com Bridgerton. Sei que dizer isso em voz alta na internet pode ser considerado heresia, mas preciso ser honesta: parece um romance montado a partir de um algoritmo do Pinterest. Bonito? Sim. Esteticamente impecável? Também. Mas emocionalmente? Palatável demais, insosso até a última gota.
Tenho a sensação constante de que já vi aquela história antes, só mudaram o figurino e adicionaram um quarteto tocando versões clássicas de músicas pop.
Os personagens, para mim, parecem frágeis. Não frágeis emocionalmente, até porque isso seria interessante, mas frágeis de profundidade. Como se existissem apenas para cumprir arquétipos românticos.
E isso me leva a Stranger Things, um caso curioso porque, honestamente, eu gosto da série. Ou gostava sem ressalvas.
Mas existe algo profundamente estranho em esperar quatro ou cinco anos entre temporadas. Quando os personagens finalmente voltam, eles não parecem mais os mesmos, porque, tecnicamente, não são. Os atores cresceram, mudaram, envelheceram, e a própria história parece perder organicidade.
Chega um ponto em que o enredo começa a existir apenas porque precisa continuar existindo. E aqui mora outra verdade inconveniente: muitas séries modernas não sabem envelhecer.
Passam da terceira temporada e simplesmente colapsam. Ou pior: viram versões empobrecidas de si mesmas.
Enquanto isso, Criminal Minds conseguiu quinze temporadas porque entendia sua própria fórmula. Supernatural também. Até quando erravam, e estou sendo honesta porque eles realmente erravam bastante, você continuava lá porque havia investimento emocional.
Era como permanecer numa amizade longa. Nem todos os dias são incríveis, mas existe história suficiente para fazer você ficar.
E talvez seja isso que sinto falta: a sensação de pertencimento.
As séries desse período tinham uma espécie de mágica difícil de explicar. Não eram perfeitas. Tinham fillers absurdos, episódios duvidosos, efeitos especiais questionáveis e temporadas inteiras que poderiam ser resumidas em quatro episódios.
Mas elas nos deixavam entrar. Elas criavam mundo e nos submergia nele.
Hoje, muitas produções parecem apenas querer viralizar um recorte no TikTok.
Uma frase impactante. Um casal “shippável”. Um cliffhanger artificial. Um figurino instagramável.
Mas me pergunto: o que acontece quando uma série para de querer construir intimidade e passa apenas a performar relevância?
Talvez seja por isso que, no fim do dia, eu continue voltando para os seriados dos anos 2000. Porque alguns lugares, mesmo fictícios, ainda conseguem parecer casa.
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