Ep 1. Did all fashionistas died and went to heaven, and now i´m just in hell
Há algo de profundamente entediante na moda contemporânea — e não, não se trata de uma implicância saudosista de quem idealiza décadas passadas, até porque eu bem sei que tem coisas que devem ser enterradas no passado for good. Trata-se de um esvaziamento real, quase clínico, do estilo enquanto expressão individual. Agora todo tipo de expressão fora do nicho é cringe, brega, feio e etc.... Falta originalidade, talvez?
Para quem, como eu, nasceu em 2001, cresceu assistindo à promessa de que a moda seria território de liberdade, criatividade e identidade, o cenário atual soa como uma contradição silenciosa: nunca houve tantas roupas, e, ainda assim, nunca se vestiu tão igual. Like, como fomos disso:
P.s: de 5 a cada 7 meninas na minha faculdade estarão com essa mesma
roupa no mesmo dia, e isso não é uma crítica, é apenas um comentário de
algo que vejo todos os dias...
Perdeu-se o risco. Perdeu-se o erro. Perdeu-se, sobretudo, a coragem de sustentar uma imagem que não esteja previamente validada por algoritmos ou influenciadores. Hoje, vestir-se bem não é mais um gesto de autoria, mas de adequação. Óbvio né? Pensando na rotina exaustiva que muitos tem, o ideal é gastar menos tempo pensando qual peça de roupa combina com tal sapato, e sim vestir algo que eu já vi outras quatorze influenciadores usando e sei que fica visualmente bonito.
Percebem que minha crítica não é ao indivíduo em sua singularidade?
As pessoas não constroem um estilo; consomem um estilo pronto, embalado, replicável. E o mais curioso é que isso acontece sob o discurso de “ser você mesmo”, como se houvesse autenticidade em reproduzir exatamente o que milhares de outros já estão usando.
Há também uma relação inquietante entre velocidade e superficialidade. Quando tudo é tendência, nada permanece tempo suficiente para se tornar significativo. A roupa deixa de contar uma história — ela apenas cumpre um ciclo curto de relevância antes de ser descartada, tanto material quanto simbolicamente. E, nesse processo, o sujeito também se dilui: sem tempo para experimentar, errar e se reconhecer, a identidade estética torna-se frágil, quase inexistente.
E, sem querer me aprofundar ainda mais, não é isso que fazemos com nossas relações ultimamente? Nada pode ser complicado, nada pode exigir tempo ou questionamento. Nada pode ser construído aos poucos, na verdade, tinha que ser entregue ontem.
E, sem querer, me pegue pensando em Bauman. Sim, sim Zygmunt Bauman. Ele que diz que a humanidade está vivendo um período de acelerado descarte. Onde todos nossos laços, sejam econômicos, familiares, laborais e por aí vai, é inscontante. Isso resume muito bem o que eu venho tentando tocar com essas linhas desconectadas.
Não se trata de demonizar o acesso ou romantizar a exclusividade. O problema não é que mais pessoas possam consumir moda — isso, em si, seria positivo. O problema é que o sistema que sustenta esse acesso parece operar à custa da individualidade. A abundância de opções não resultou em diversidade estética, mas em uma uniformização sofisticada, disfarçada de escolha.
Talvez o verdadeiro ato de estilo, hoje, seja desacelerar. Repetir roupas sem culpa. Garimpar, até. Misturar referências sem pedir autorização ao que está “em alta”. Permitir-se parecer deslocado, estranho, até inadequado — porque é nesse espaço de desconforto que alguma autenticidade ainda pode sobreviver.
No fim das contas, a moda nunca foi apenas sobre o que se veste, mas sobre o que se comunica sem palavras. E, atualmente, o que ela tem dito, com uma clareza quase constrangedora, é que estamos todos falando a mesma coisa — ainda que insistamos em chamar isso de expressão pessoal.
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